| Monoteísmo e politeísmo |
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| Umbanda - Para começar | |||||||||
| Sex, 18 de julho de 2008 00:45 | |||||||||
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É freqüente se ouvir dizer que a Umbanda é uma religião politeísta. Trata-se de uma afirmação reducionista. Infelizmente, não é simples classificar nenhuma religião como mono ou politeísta porque existe uma escala ampla de possibilidades nesse quesito. A Umbanda resulta do sincretismo de religiosidades como a católica e a ioruba. A primeira costuma ser reconhecida como monoteísta e a última, como politeísta. Vamos analisar o quanto de monoteísmo ou politeísmo existe em cada uma delas, começando pela religiosidade ioruba. No mito da criação ioruba, Olorum foi o orixá primordial, responsável pela criação do universo. Olorum não tem ascendentes. É o motor primeiro, anterior ao qual nada existia. Nesse sentido, a religiosidade ioruba é monoteísta, pois a partir de uma força primordial, tudo é gerado. No entanto, Olorum é tratado como orixá, logo possui características antropomórficas comuns aos demais orixás, apesar de ser teologicamente muito diferenciado deles. Supondo uma metáfora de relação familiar, Olorum seria o bisavô do Orum (mundo divino dos orixás). Considerando esse fato, é possível atribuir à religiosidade ioruba uma característica politeísta, já que a regência do universo é feita de forma compartilhada por um panteão, ao qual Olorum pertence, mas do qual já se distanciou. Há um componente monoteísta na cosmogonia ioruba, mas a ênfase que se observa na prática religiosa cotidiana está no culto ao panteão que assumiu a regência do universo após o afastamento de Olorum do relacionamento com os homens. Em nível mitológico, é perceptível a metáfora de estrutura familiar que existe no Orum. Olorum é o ancestral que todos reconhecem como fundador, mas com o qual já não se tem uma relação próxima. Na religiosidade ioruba, não há ênfase no culto a Olorum, nem ao reconhecimento dele como demiurgo. Não se faz oferendas nem pedidos diretamente a Olorum. Enfim, a religiosidade ioruba manifesta a fé em um criador, mas entende que esse criador delegou a um panteão de entidades a condução dos negócios do mundo. A partir de uma cosmogonia monoteísta, engenhosamente, se passa a uma ordem divina politeísta. Na fé católica, que é tributária do judaísmo, existe uma ênfase incisiva na reverência a Deus. Deus é criador e regente do universo. Nesse sentido, a fé cristã é decididamente monoteísta. No entanto, o catolicismo também concebe um mundo divino (o Céu), onde habitam entidades que se organizam em uma estrutura complexa e que efetivam contatos e trocas com o mundo natural. Há os anjos que acompanham os humanos e que executam tarefas passadas por Deus. Há Jesus Cristo, que está imediatamente abaixo de Deus na hierarquia celeste e há os santos que intermedeiam as demandas dirigidas a Deus pelos humanos. Os santos recebem oferendas, pedidos e concedem milagres e graças. Da mesma forma que acontece na religiosidade ioruba, os católicos crêem em um mundo divino onde habitam entidades com as quais podemos nos relacionar. É tentadora a idéia de associar a figura dos santos à dos orixás. A Umbanda percebeu essa similaridade e efetivou o sincretismo, de sorte que os orixás da Umbanda correspondem a santos católicos. Comparando a fé católica à religiosidade ioruba vamos perceber similaridades notáveis. Ambas têm cosmogonias monoteístas e as duas concebem um panteão que habita em um mundo divino. Os homens podem se relacionar com as entidades máximas do panteão através de culto reverente voltado para o encaminhamento de demandas. A diferença entre as duas religiosidades, nesse aspecto, está na reverência ao criador, que é forte e central na fé católica e pouco enfatizada na fé ioruba. As razões dessa diferença podem estar associadas às condições sociais em que se desenvolveram originariamente as duas religiões. O catolicismo se desenvolveu sob o império romano com toda sua centralização e hierarquia, enquanto a religiosidade ioruba se formou em comunidades tribais. É perceptível a similaridade entre estruturas sociais reais e correspondentes estruturas sociais míticas. Aceitando essa premissa de similaridade, é razoável supor que a reverência direta a Deus, típica do catolicismo reflete uma organização do mundo em que há uma hierarquia piramidal que culmina em uma liderança suprema. Nas comunidades tribais, caracterizadas pela descentralização e divisão de funções, soa mais natural uma organização divina em forma de panteão.
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